“Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”*
Acordo, mal abro os olhos, estico meu braço automaticamente, e bem calculado, para alcançá-lo. Não é preciso olhar. Então pego-o, desbloqueio-o, rolo a sua tela sem parar, sem piscar, sem sentir. Será realmente que isso é acordar?
Não precisei escrever a palavra “c-e-l-u-l-a-r” para que o leitor soubesse que o sujeito oculto era justo este sujeito.
E isso se deve a normalidade desta experiência no nosso dia a dia.
Tudo bem, até pode ter sido a descrição de uma cena caricata de uma sociedade dormente (que, por estar dormindo, está produzindo doenças, portanto uma sociedade doente), mas, se olharmos com atenção, depararemo-nos com recortes semelhantes não só na manhã como no decorrer do dia inteiro.
Quantas regras estamos seguindo porque lemos um post de um “especialista” no Instagram?
Quantos comportamentos estamos tendo a serviço daquilo que está estampado nas imagens?
Os produtos que compro foram escolhidos livremente por mim ou foram adquiridos em função de um desejo implantado?
Quais pensamentos realmente são nossos e quais são produzidos para nós?
Acho que em algum momento foi vendida a ideia de que “adaptação” é desenvolvimento de capacidades saudáveis. Adaptação nada mais é do que nosso organismo respondendo às demandas do contexto atual a fim de sobreviver. Sobreviver não basta. Precisamos viver, mas, para isso, precisamos estar despertos. E olhando para o nosso contexto atual, que bom se estivermos mal-adaptados!