Qual a voz do teu silêncio?
Foto de arquivo pessoal: um dos moldes de O Pensador, de Rodin, situado no Vaticano. A peça, que retrata um homem em meditação, faz-se como um convite à contemplação da alma humana.
Não sei “quem” inventou a regra de falar o tempo todo (seja em uma sessão de psicoterapia, uma conversa olho-no-olho ou até mesmo dedo-com-dedo). “Quem” disse que toda pergunta tem que ter uma resposta afirmativa-conclusiva? E que, se houver a tal resposta, então está tudo resolvido? Eu ainda pergunto: “quem” disse que a resposta é A Verdade?
Somos tão apegados aos conceitos, às respostas, às afirmações, ao texto pronto, ao passo-a-passo, que não sobra espaço para uma página em branco, pesquisas sem considerações finais esclarecedoras; a dúvida, a espera e, sobretudo, A CONTEMPLAÇÃO.
Em sessão, quando temos a companhia do silêncio, noto minha mente me levando ao que ela faz de melhor: grita conceitos, regras e condições com o intuito de “consertar” ou “se livrar” desse desconforto na forma de: “que desconfortável, a gente tá se olhando, será que ele/a tá esperando algo de mim?, como me livrar desse silêncio? ele/a tá pagando, então tenho que mostrar serviço!” e por aí afora em questão de poucos segundos!
Então, preciso voltar “ao primeiro parágrafo”, relê-lo dentro de mim. Respeitar o que se passa entre nós (silêncio), o que se passa dentro de mim (ruídos!) e, principalmente, contemplar o que este momento pede. Então, de maneira consciente e livre, escolho OU silenciar, OU trazer alguma pergunta OU compartilhar o que há embaixo da minha pele a fim de me certificar se tem algo semelhante embaixo da pele do outro OU muitos outros “ous”.
Para que eu aja de acordo com o que o momento pede, devo parar. Mas não um parar inerte. O parar, aqui, deve ser ativo, que me leve para dentro e que, ao chegar dentro, naturalmente algo é materializado fora (uma ação motora, uma ação verbal, o conjunto destas – lembrando que não existe “inação”: não fazer é fazer).
Silenciar não é calar, amordaçar.
Contemplar não é parar na inércia.
Silenciar é dar voz.
Contemplar é parar ativamente.
Não raro, as sessões de psicoterapia mais significativas são aquelas que as palavras apenas são figurantes das cenas e cenários de contemplação.