Texto que não é para ser lido*
Depois de uma aula de hatha yoga em que a permanência foi a protagonista, vieram-me reflexões sobre a Terapia de Aceitação e Compromisso. Mais: sobre a vida. Afinal, é “para isso” que tanto o hatha yoga quanto a ACT trabalham: o corpo como veículo de consciência e a observância das respostas corporais, sobretudo cognitivas e emocionais ao desconforto e ao conforto, à dor e ao prazer, aos impulsos, às aversões, aos desejos. E, no meio disso tudo, deixar-se balançar, sem deixar-se cair. Existe um EU anterior e além a estas respostas automáticas e condicionadas da mente-organismo. Yoga pode chamá-lo de Eu-Transcendente, ACT, de Eu-Valorizado.
É um desafio colocar em palavras o que foi “construído” para ser experienciado. Uma aula de yoga não se explica. Uma sessão de ACT não se conceitua. A aula é para o aluno, assim como a sessão é para o paciente. Há professor, há terapeuta, observadores das suas próprias experiências, das experiências dos outros. Sabe dos pilares de uma aula, de uma sessão e, ao mesmo tempo, não há protocolos, há organicidade. Mais um encontro entre Yoga e ACT: a (apenas) aparente (ilusória) dualidade e a busca pela complementaridade.
Voltando à protagonista da aula mencionada, a permanência: vejo em mim, tanto no tapete do yoga quanto na cadeira de paciente e de terapeuta a maior dificuldade. Não estou sozinha nessa, é o que é mais difícil para a mente humana. Permanecer em alguma experiência, seja ela agradável ou desagradável, seja ela externa ou interna, é desafiador. Neste mundo cheio de ruídos, hiperestimulado, superdistraído, a permanência é coadjuvante. Uma sessão de terapia de permanência a alguma emoção ou pensamento, uma aula de yoga de permanência em alguma postura, geram muito desconforto e instabilidade, que podem levar à estabilidade, que, se bem aproveitada, leva à força. Aparentemente, não se fez nada. (E que bom! Porque yoga não se faz, ACT tampouco. Vive-se a ambas!)
Em resumo, gostaria de repetir o que meu mestre diz: “encontrar conforto no desconforto; encontrar a estabilidade na instabilidade”. Assim como o que Hayes já nos ensinou: “o objetivo não é se sentir bem apenas, é sentir bem tudo“.
*Sobre o título: seja uma aula de yoga, seja um sessão ACT, seja a própria vida, a teoria só tem valor se vivida. Um texto, quando de valor, não pode habitar o plano das ideias. Precisa se esparramar pela vida. Espero que o que aqui foi escrito tenha cumprido com este propósito.