Linguagem: a bênção e a maldição da condição humana
A linguagem que tanto ajudou a nós, humanos, a chegarmos até aqui, é a mesma que tanto nos traz sofrimento e que está por trás dos transtornos psicológicos. Apesar de ser uma ótima ferramenta para conhecermos o mundo, solucionar problemas, colocar-nos em comunidade e em cooperação é um obstáculo para conhecermos o mundo, lidar com dificuldades, colocar-nos em comunidade. Opa! Como assim?!
Vamos voltar à nossa história do desenvolvimento, quando ainda éramos bebês não-verbais. Quanto mais estávamos imersos no mundo verbal (pessoas à nossa volta, TV, Youtube, músicas…) mais aprendíamos que as coisas (incluindo as pessoas) tinham um nome…um tamanho…uma dimensão…e que podiam ser relacionadas ou por equivalência, ou por oposição, ou por hierarquia, ou por comparação, por tempo, por distância, por causalidade…e assim também fomos nos tornando verbais. E até aí, ótimo! Obrigada evolução da mente humana! Porém, estes mesmos aprendizados relacionados ao mundo externo vão sendo construídos de modo equivalente no nosso mundo interno (aquele que está debaixo da nossa pele): onde estão emoções, sentimentos, sensações, pensamentos, memórias, previsões, preocupações… e eis o problema.
Quando levamos a linguagem da nossa mente ao pé-da-letra (seja quando nos traz uma previsão, quando nos faz resgatar experiências passadas agradáveis ou não, faz ameaças, avaliações, julgamentos, comparações, soluções para situações que ela diz serem ‘problemas’…) podemos perder o contato com o aqui-e-agora, fazendo com que nossas ações estejam de acordo àquilo que a mente está me contando e não das contingências do momento.
É comum nossa mente nos dizer: “Ansiedade é horrível, me faz perder o controle, me faz enlouquecer. Tenho que me livrar dela”; “Chorar é fraqueza; tenho que ser forte”; “Todos conseguem isso, só eu que não. Devo ter algo de errado”…
[Ao ler estas frases, que são apenas palavras em conjunto e, antes, letras agrupadas, que eliciam sons… Você NOTOU o que na sua MENTE? No seu CORPO?…]
Estamos tão FUSIONADOS à nossa mente que o que ela nos diz pode estar no comando da nossa vida.
E se Nós, que não somos a nossa mente (ela é apenas uma parte nossa), pudéssemos DESLITERALIZAR o que ela nos conta e passássemos a viver mais em contato e de acordo com a VIDA QUE VALORIZAMOS? Este é o caminho da ACT: que busquemos a flexibilidade psicológica.
OBS.: A mente e a linguagem funcionam na base da lógica, mas, lembre-se de que ‘lógica’ nem sempre é útil, principalmente em se tratamento do nosso mundo interno. Ex.: é lógico eu querer me livrar da ansiedade, pensar que ela é horrível e devastadora, mas não é útil, pois, quanto mais engajo meu comportamento em tentar “me livrar”, mais “preso” fico”.