ACT na Vida Real

Céu: metáfora para a mente

Imagem: céu de Matosinhos, por volta das 7h.

O que o céu de Matosinhos (Porto, Portugal) tem me ensinado desde que cheguei é que aquilo que nossa mente diz “nuvens” na realidade não são nuvens, mas rastros de aviões*. O céu aqui é costurado (tamanho tráfego aéreo!).

O início do dia revela com mais nitidez a costura dos rastros e quando chega a tardinha, eles se alastram e se misturam com as nuvens.

Um céu de algodão.

Experiência bela da natureza em conjunto com as criações do homem.

Tenho para mim a metáfora perfeita do que é a mente ao simplesmente olhar para o céu de Matosinhos: somos o céu. As nuvens ou aquilo que não são nuvens mas parecem sê-las (interpretadas como se fossem ou vistas pela ilusão de ótica), são as produções da nossa mente (pensamentos, imagens, memórias, desejos, impulsos).

Na última semana, peguei-me presa em nuvens na minha mente e, hoje, ao olhar para este céu, percebi que nem nuvens eram, eram simplesmente rastros de outras experiências. Não sei o que fiz, o que aconteceu, e noto que hoje sou o céu, naquele momento também o era, mas por estar presa ao que continha nele, me misturei e acreditei que eu era tudo aquilo – menos o céu. 

Além de trabalhar ajudando pessoas a entrarem em contato com seu céu (verdadeiro-Eu), meu principal trabalho é me ajudar a entrar em contato com meu céu.

Como é difícil ultrapassarmos as “nuvens”! Elas são tão reais, fazem tanto sentido, nos dão a sensação de que podemos pegá-las, moldá-las, modificá-las! A verdade é que não podemos pegá-las, moldá-las, modificá-las.

Nosso papel é contemplá-las, refletir e observar sobre quais suas possíveis origens, como se formaram, quais funções têm neste momento e respeitar o seu tempo até que se dissipem.

E como as nuvens, nossa mente tem uma dinâmica de auto-organização: com sua inteligência natural, formam-se, unem-se, dissipam-se. Às vezes (lê-se: muitas), o que mais precisamos é parar de tentar “pegar as nuvens e controlá-las”, simplesmente deixando-as que se organizem por elas mesmas.

*Os rastros dos aviões, também chamados de rastros de condensação, são nuvens, mas o que quis construir ao longo do texto é a noção de que não são nuvens naturais, “as verdadeiras nuvens”*