Cuidado com as narrativas de controle disfarçadas de cuidado
Nós vivemos em um mundo mergulhado nas narrativas. Desde que nascemos, ao mesmo tempo em que emergimos de um ambiente, imergimos em outro: a cultura.
Toda cultura é baseada na linguagem, principal meio de nos relacionarmos com o mundo e conosco, e é ela que atribui significado à vida. Com a linguagem, uma coisa deixa de ser uma coisa: ela é avaliada, comparada, julgada, e por aí vai. Dessa forma, deixamos de ver a coisa pela coisa que é e passamos a vê-la pelos olhos da linguagem.
Você já se deu a oportunidade de dar um passo para trás e observar os padrões de linguagem que existem nos seus pensamentos? Faça isso por uns instantes. Que tipo de idioma sua mente fala com você? Que tipo de legenda ela coloca ao se deparar com suas próprias experiências internas (sentimentos, emoções, sensações, memórias, pensamentos)? E em relação às experiências externas, aquilo com o que se depara no mundo à sua volta?
Frequentemente, deparo-me em minha mente com narrativas de controle disfarçadas de cuidado. O mesmo ocorre ao deparar-me com a mente das pessoas em psicoterapia. Eis o funcionamento automático (e evolutivo) da nossa mente! Que usa o medo como motivador para ações… Quanta ilusão! Controle é o que nossa mente mais deseja e sua forma para obtê-lo é pintando o medo e a ameaça de punição em tons abertos, iluminados, ou seja, disfarçados de cuidado. Medo e ameaça de punição, na sua origem, têm tons fechados e literalmente nos enrijecem na vida. Em contrapartida, o cuidado é flexível, compreende, acolhe, orienta. Ele não precisa ser disfarçado por tons abertos. O cuidado, muitas vezes, acontece em tons mais neutros, pastéis. Ele é duro quando precisa ser. É maleável de acordo com o momento.
Não é coincidência que estejamos vivendo num mundo em que as narrativas coletivas sejam assim: com origens em regras rígidas (construções de verdades absolutas e, ao mesmo tempo, polarizadas) que ativam o medo e a ilusão do cuidado.
Que possamos cuidar cada vez mais das nossas mentes individuais. Um mundo em que as pessoas cuidam de si mesmas é um mundo mais altruísta. Já dizia J. Krishnamurti: “o mundo é você mesmo duplicado e multiplicado”.