NÃO PENSE EM UM LIMÃO!
Tudo bem, agora você pode. Pense em um limão.
Notou o que acabou de acontecer?
É impossível não pensar!
Mas, desta vez, esforce-se um pouco mais: não pense em um limão… respire fundo, você não pode pensar em um limão… não pense que esse limão está partido ao meio… continue se esforçando. Respire. Não pense que você se aproximou tanto dele a ponto de sentir seu cheiro, sua acidez. Continue focado em não pensar no limão… não pense que seus olhos arderam ao olhar para uma das metades tão de perto. Lembre-se: não pense no limão, mantenha-se no esforço na tarefa. Não pense que você acabou de abrir a boca e pingou uma gota do limão na sua língua… não pense que você engoliu essa gota.
Você não pensou em nenhum momento no limão, certo? ERRADO!
Deve ter, inclusive, não só pensado no limão, seja em imagens fotográficas da sua imaginação ou da sua memória, seja em imagens no geral e até mesmo em associações: suco, estampas, receitas, caipirinha… mas também tido sensações e reações: enrugar o nariz, franzir a testa, ou qualquer outra resposta reflexa do nosso corpo ao se deparar com algo ácido.
O propósito desse exercício “do limão” (que também pode ser de qualquer outra experiência: “do bolo de chocolate”, “da viagem de avião”, “da prova final”, “do dia de trabalho”, “da pessoa que você ama”…) é mostrar que, por mais que escutemos da nossa mente ou da fala de alguém para “não pensarmos” determinada coisa, o que acontece é justamente pensar sobre a coisa.
Essa função do “não” apenas existe na linguagem.
E que função é essa? De dar ordem. Por mais que seja escrita, ouvida ou dita, não é capaz de controlar o meu comportamento ou o comportamento do outro. Pelo contrário: nossa mente funciona por ADIÇÃO e não por subtração, ou seja, ela foca nos estímulos apresentados, mesmo que produza pensamentos “dizendo ‘não’”.
Isso vale para sentimentos (que, na verdade, são pensamentos sobre os sentimentos): “Não posso me sentir ‘triste’” (“triste” poderia ser substituída por qualquer outra palavra que represente um sentimento indesejável e desagradável). Isso também vale para as situações da vida.
Pense em situações em que o “não” estava presente e mesmo assim você notou algum comportamento oposto.
Um exemplo comum é o de realizar alguma dieta com restrições alimentares: “não posso comer…”
Ou quando um adulto diz para a criança: “não coloque o dedo aí!”.
Também quando há uma placa: “não entre”.
Como, então, preciso me relacionar com meus pensamentos, sentimentos e situações desagradáveis? Não devo pensar no “não”?
Em primeiro lugar: não existe a regra do não nas nossas experiências, lembra? Apenas existe na linguagem! Então, continuaremos pensando e nos deparando com os “nãos” e, junto a eles, poderá estar nossa consciência de que não são eles que controlam a minha experiência, pelo contrário. Quanto mais penso “no ‘não’”, mais o que quero evitar estará presente, virá o sofrimento e se haverá um gasto de energia desnecessário.
Trago o limão como exemplo novamente: precisamos estabelecer uma relação desfusionada (em outro momento, haverá um texto sobre DESFUSÃO COGNITIVA) com o “limão” (lembre-se de que “limão” pode ser qualquer pensamento/sentimento/situação).
E que relação é essa?
É uma relação que desliteraliza as palavras (pensadas, ouvidas, ditas): notar as experiências COMO ELAS SÃO ao invés de COMO MINHA MENTE diz que DEVERIAM SER (ou que os outros dizem).
Ao ESTAR EM CONTATO COM O LIMÃO (ou um pensamento, ou um sentimento, ou uma situação de vida): atente para suas características físicas, suas propriedades, como se fosse um observador que descreve o que é observado. O observador é capaz de estar em contato com a experiência como ela é enquanto também observa seus pensamentos, seus sentimentos, suas sensações, seus desejos, seus impulsos. E NÃO SE MISTURA COM NADA DISSO.
Com esta relação desfusionada (ou desliteralizada ou, simplesmente, de observadores), passamos a gastar energia em função daquilo que é importante (algum comportamento livremente escolhido e valoroso) ao invés de gastarmos energia lutando uma luta já perdida desde o início (na luta contra a mente, só haverá um vencedor sempre: ela mesma).