“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”: eu, Heráclito e a ACT
Retornei, depois de dois anos, à minha cidade natal, onde permaneci até a mudança para Portugal.
Na verdade, a gente retorna apenas a nível linguístico, pois, a nível de vida, de experiência, de realidade além-palavras, a única constância é a mudança, o novo depois do novo, a primeira, de fato, é a última vez.
Eu voltei ao local onde passei quase trinta anos da minha vida sim, mas quem cheguei era única. Nunca esteve aqui.
Me surpreendi com a minha surpresa. Notei diferenças no conhecido, tanto o da cidade quanto o de mim.
Reflexão “ACT”
Relações humanas são organismos vivos, que se desenvolvem, adquirem saúde ou doença, ora mais ativos, ora passivos… Por que, então, tendemos a nos enrijecer em papéis? Os papéis são necessários – cada papel desempenha uma ou mais funções dentro de um sistema – e para funcionarem precisam estar mais de acordo com a essência de sua função do que com a aparência (performance) desta.
Dois anos “longe” dos locais e das relações conhecidas, consequentemente dos “meus papéis”, fizeram-me “voltar” mais conectada à essência dos papéis, agora livremente escolhidos por mim, não mais designados a mim.
A Terapia de Aceitação e Compromisso nos convida a refletir sobre o Eu (aquele anterior e além aos papéis sociais e culturais) e aos seus comportamentos livremente escolhidos, também chamados de ações valorosas ou ações comprometidas. E este texto lhe convida a localizar-se na sua vida, reconhecendo que “lá” não existe, há apenas o aqui. Portanto, que ações livremente escolhidas estou construindo aqui-e-agora? Que ações podem estar presas, a serviço de papéis designados para mim e não escolhidos por mim?
A ACT não é uma psicoterapia da libertinagem, é a psicoterapia da liberdade.
A ACT não é uma psicoterapia da inércia, é a psicoterapia da ação com compromisso.
A ACT não é uma psicoterapia do desempenho e da eficiência, é a psicoterapia das ações eficazes.
Não é suficiente uma psicoterapia eficiente (que atinja objetivos). O foco da ACT está na vida eficaz para cada pessoa (que seja coerente aos valores pessoais).
Se não posso me libertar totalmente destas designações, então, dentro delas, como escolho viver?