Um idioma: diversas vivências
O que o português de Portugal tem a ver com a ACT
O nome (conceito) do idioma é o mesmo, enquanto vivê-lo (prática) se distingue de formas diversas, muitas delas, engraçadas! É tanta diferença que, aqui, os portugueses chamam o português falado no Brasil de “brasileiro”!
Muitas vezes, o que se diferencia não são tanto as palavras em si, mas a relação de umas com as outras e seu ordenamento ao longo das frases.
Escolhi ressaltar algumas expressões portuguesas que funcionam para mim como resumos-chave para a compreensão da Terapia de Aceitação e Compromisso. Essas revelam uma sabedoria, ou, falando em termos “ACT”, processos de flexibilidade psicológica.
“É tudo?”: em situações de compra, o vendedor questiona “é tudo?” ao invés de “é só isso?” (processos de Desfusão Cognitiva e Perspectiva).
Expressão “vem a calhar”: é uma ótima metáfora autoexplicativa – calhar vem de “calha” / “cano”, ou seja, algo que encaminha, que leva a uma direção (processos de Valores e Ação Comprometida).
“É o que é”: para mim, esta é “a melhor” expressão portuguesa! É a que resume o processo de aceitação radical – requer humildade e coragem para ver a coisa/vida/situação/si mesmo… como o que (se) é e não como a mente desejaria ou temeria (processos de Aceitação, Contato com Presente, Perspectiva, Valores e Ação Comprometida).
Apesar de ser falante nativa de português, continuo aprendendo o próprio. A linguagem humana é infinita embora o número de suas palavras seja limitado.
Esta postura (de infinito aprendizado) em relação à linguagem (a tudo na vida) é fundamental enquanto psicoterapeuta (humanos): se aquilo que o paciente expressa nas palavras é limitado, não posso me prender nestas fronteiras. Preciso escutar o todo, o infinito.
(Ao construir este trecho, veio-me a dúvida: qual a diferença entre Aresta e Fronteira? Aresta conecta, intersecta, enquanto fronteira limita, separa. E mais um aprendizado: a ACT é uma teoria experiencial fundamentada em arestas!).
Nossa mente-pensante é construída nas bases da linguagem. Portanto, essa postura aberta, atenta, curiosa e DESLITERALIZADA é fundamental enquanto humanos, que conversamos conosco mesmos dentro da nossa mente e que interagimos verbalmente com o mundo à nossa volta.
Que possamos construir um idioma com mais arestas do que fronteiras, já que não é isso que vivemos atualmente: há tanto nome para tudo que apenas gera mais separação, embora a literalidade da palavra traga “união”, “amor”, “paz”, etc.