Passos de presença: o que uma corrida tem a ver com a ACT
Correr não é a atividade física que me desperta motivação naturalmente. Então, considerando a corrida, eu preciso encontrar alguma motivação intrínseca (aquela que vem de dentro, e não é da mente-que-pensa, é da mente-que-sente-e-por-isso-é-a-que-sabe). Nesta manhã de sexta-feira foi assim. Encontrei dentro de mim uma energia que precisava ser direcionada, potencializada com movimentos, chegar à uma sobrecarga para, depois, à descarga. Não era de alongamentos ou de respirações conscientes que precisava. É nesta hora que entra a mente-que-pensa (ela funciona a partir de condicionamentos, condicionamentos são memórias de aprendizados por consequências anteriormente vividos): “vai correr!” E eu respondi: “por que não?!”.
Só fui.
Corri. Caminhei. Parei. O importante não era o método da corrida ou o seu desempenho. Para mim, naquele momento, naquela situação, e estando debaixo da minha pele, escolhi focar em como iniciar o dia de acordo tanto com o que valorizo quanto com o que precisava, e assim o vivi (e toda essa descrição poderia ser resumida e conceituada em “congruência“: quando o que sinto, penso e preciso é encaixado nas minhas ações).
Correr desta forma valorizada e não objetivada, fez-me ver o que não havia visto até então nas ruas nem escutado nas águas. Vi formigueiros nas calçadas, que durante o dia desaparecem. Ouvi a água ser remexida pelos peixes, que durante o dia são mais discretos pelo movimento do porto e da marina. Vi a cor do céu com tons de transição noite-dia. Ao me deparar com estas experiências, estabeleci uma relação análoga a nossos pensamentos. É comum pensarmos os mesmos pensamentos com frequência, mas se mudamos o contexto, “o horário”, “os meios”, a nossa relação com estes, podemos “ver” muitas outras experiências que passam ao lado enquanto mantemos nosso hábito de “apenas passar pelas ruas durante o dia a pico”.
Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), o foco é a flexibilidade psicológica, que propõe habilidades de ter os mesmos pensamentos, emoções, sentimentos, memórias, impulsos e necessidades expandindo a nossa relação com todas estas experiências. Expandir requer experimentação, experimentação requer exposição, exposição requer agir, muitas vezes, de forma contra-intuitiva, durante e após, a experimentação das novas ações, é preciso estar em contato com as suas consequências. Consequências que não se limitem ao “bom/ruim, certo/errado”, mas que se expandam ao “noto que esta ação, por mais desafiadora que seja, está alinhada com o que valorizo/preciso ser/fazer neste momento, por isso, vale a pena“.
Uma vida que valha a pena não é aquela que obedece aos nossos desejos, impulsos, medos, expectativas… é aquela que tem tudo isso e não se prende a isso tudo. A vida que vale a pena requer a nossa presença, atenção, aceitação (reconhecer a vida/si mesmo como é e não como “gostaria/deveria”) e compromisso (agir com o que é valoroso e necessário a cada momento).
Hoje, sexta-feira, valeu a pena ter corrido. Amanhã, depois, o que valerá a pena, não sei. E não saber também vale a pena!
Sexta-feira, 03 de outubro de 2025, Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores