Promessas (ameaças?) de ano novo
Sem ir ao dicionário, o que significa para você “promessa”? E “ameaça”? Não fui ao dicionário para discorrer sobre o tema, mas trago algumas das definições simbólicas já desveladas em sessões de psicoterapia. Quem nunca redigiu uma lista de promessas de ano novo? Se não redigiu, pensou, comunicou. Se não de ano novo, para a segunda-feira, para o mês seguinte. Há ainda as promessas encadeadas em situações, aquelas que arbitrariamente a pessoa estabelece condições “se, então”, como “se X coisa acontecer, eu prometo Y”.
Mais importante do que nos atermos à promessa proferida (palavras, conceitos, ideias) é observarmos as vivências (experimentações das palavras/conceitos/ideias e suas consequências): se há ansiedade, tristeza, raiva (poderia citar outras experiências privadas aversivas), não foi promessa, foi ameaça. Se houver ações impulsivas e/ou a falta delas, não foi promessa, foi ameaça. Muitas vezes, quando prometemos algo, essa experiência é permeada pelo medo (“de falhar”, “de ser julgado”, “de decepcionar-se / decepcionar o outro”) da punição. Isso também não é promessa: é ameaça.
Faça a breve experiência de brincar com as palavras. Pense em alguma “promessa” para o ano novo. Escreva-a. Por exemplo, se a promessa é “prometo fazer mais atividade física a partir de janeiro”, mude o “prometo” por “ameaço”: “ameaço fazer mais atividade física a partir de janeiro”. Note. Leia. Escute. SINTA. Qual frase está mais de acordo com a sua realidade neste momento? Se a realidade (ou Verdade-com-V-maiúsculo) é aumentar a frequência de atividade física, a responsabilidade desta pessoa é apagar a palavra promessa e escrever Compromisso no lugar. Melhor do que substantivo, é verbo: “comprometo-me em fazer mais atividade física a partir de janeiro”.
Compromisso vem de ações autoescolhidas e o seu foco não está apenas nas consequências desejadas (esse é o foco das promessas, ter as graças atendidas!), mas na ação em si. Compromisso é criar contingências de reforçamento positivo (“quanto mais eu faço, mais importante isso se torna para mim; eu não tenho um destino a chegar, eu vivo o processo, e este processo é retroalimentado, não tem fim”). Quando há Compromisso, não há ameaça, há bom senso. Este senso (atenção às ações – às que nos afastam do compromisso, às que nos aproximam deste) nos traz Segurança e Autoconfiança. Se algo está adequado, sinto-me bem e continuo. Se algo não está adequado, corrijo-me, sinto-me bem e continuo.
Nesta transição de um ano ao outro, lembre-se de que todo dia é um Ano-Novo ou uma segunda-feira. Lembre-se de que promessas podem ser ameaças disfarçadas. Lembre-se de que Compromisso é o início, o meio, o início, o meio; não há fim.
Feliz Ano Novo. Feliz Todo Dia de Compromissos!