Escritoterapia
Como toda experiência verdadeira, os benefícios do escrever só se manifestam a partir da sua vivência. Posso lhe contar sobre a importância da escrita para mim e compartilhar o que a ciência diz sobre seus efeitos terapêuticos. Ainda assim, o relato não é a escrita, tampouco o que ela promove em nós, seres humanos.
Seres humanos só o são devido à linguagem. Temos um maquinário muito evoluído, tecnológico, chamado mente, cujo funcionamento não conhecemos muito bem. Não sabemos usá-lo a nosso favor e dele não nos apropriamos devidamente. No fim, esse recurso não pode ser atualizado, segue enrijecido em versões anteriores e condicionado ao software inicialmente instalado. Eis o oposto do que tão bem fazemos com os dispositivos eletrônicos.
Nossa linguagem é tanto verbal quanto não verbal. A não verbal implica todas as imagens que a mente produz e relaciona a experiências prévias (nossas ou dos outros, reais ou imaginadas). A verbal é a que utiliza símbolos, letras, palavras e frases que obedecem à gramática das línguas. O nosso pensamento é o produto destas duas formas de linguagem.
Os pensamentos correm soltos. Um único pensamento não é linear, pelo contrário, anda em círculos, círculos que rodopiam, rodopios que se tornam vórtices. Isso tudo é um único pensamento. Junto a ele, há outros “únicos” disparados simultaneamente, que se encontram, podem se chocar e se dividir e se embolar… Por menor que seja a estrutura do pensamento (palavras e imagens), ela nunca é linear: desta sentença, consciente ou inconscientemente construída, advêm sentimentos, memórias, sensações, mais palavras, mais imagens, mais sentimentos, mais memórias…
A escrita entra neste turbilhão como uma meditação, quem sabe uma oração, ou simplesmente uma organização ou uma gestão de arquivos. Ela desacelera o movimento centrífugo, embora não o pare. Identifica as camadas, compartimenta-as, etiqueta-as e organiza-as em pastas. Restabelece o ritmo da respiração e dos batimentos cardíacos. Ajuda o córtex pré-frontal a exercer suas funções executivas de forma eficaz. Cessa as reações impulsivas e direciona o comportamento pela escolha, não por mera sobrevivência.
A escrita não é a materialização bruta dos pensamentos (isso seria o caos!). A escrita é, portanto, o pensamento clarificado: é a reflexão, é o embate contra nossas tendências e, ao mesmo tempo, é o encontro com nosso Eu mais essencial. A escrita é um espelho de raio-X, mas mais profundo e abrangente do que o raio-X. Cultivar o compromisso de escrever requer entrar nesta sala de espelhos e deixá-los revelarem nossas camadas mais íntimas.