ACT na Vida Real

Especialidade: pedaçologia

Faz parte da condição humana nomear as experiências e os objetos, e isso tem muitas vantagens: os nomes nos ajudam a criar categorias, categorias que nos permitem comparar, localizar, diferenciar e assemelhar. Daí, surgem os subprodutos das categorias, que tornam-se os alicerces das nossas escolhas que, por fim, direcionam nossas ações. Também faz parte da nossa condição o contrapeso entre vantagens e desvantagens: ser humano é sinônimo de paradoxo.
Num mundo cheio de nomes para tudo – muitas vezes justificados pelas “descobertas científicas” -, as categorias se tornam rígidas e, ao invés de colaborarem com a nossa liberdade de escolha, nos enredam em escolhas predeterminadas. Vou dar nome a isso (afinal, sou humana!): condicionamento

A medicina que sempre foi integrativa, agora precisa de um nome literal para que se torne integrativa. Um médico especialista em determinada área, deus o livre! considerar a espiritualidade e as camadas emocionais do paciente. Deus o livre! tratar a pessoa, é preciso tratar da doença e das disfunções. A medicina como qualquer outra área humana É integrativa (esta afirmação é apenas uma recordação das suas fundações éticas).

Considerando o terreno por onde piso: a psicologia, que parece estar afastada da sua ética, como nunca, triturando-a em narrativas de bem-estar-e-bom-funcionamento-da-sociedade com ações de divisão do ser humano (mas, claro, a serviço do “baseado em evidências científicas” – afinal, de que ciência falamos hoje no mundo?). Faz dos próprios estudantes e dos futuros pacientes, Franskensteins. Estes dias, escutei de uma paciente uma palavra tão bem criada, colocada e descritiva para se referir a este mundo fragmentado: “os pedaçólogos”.

Nossa mente é, talvez, a que mais tem expertise em pedaçologia. Mas de que serve a expertise se não tiver funcionalidade, viabilidade, trabalhabilidade? Apenas para reconhecermos os pedaços, pois, ao reconhecermos os pedaços, reconhecemos o todo. Bendita seja a integração!
A questão é que passamos a ver o mundo com as lentes que escolhemos ou que escolheram por nós na nossa caminhada até aqui (condicionamentos!). Um endocrinologista vê o mundo na perspectiva hormonal. Um investidor vê o mundo a partir dos riscos e das projeções econômicas. O problema não são as lentes. O problema é nos identificarmos com as lentes. Lentes como lentes sempre podem ser trocadas ou adaptadas. Lentes nunca podem ser a paisagem.

Escolhi Hermann Hesse como o autor do desfecho deste ensaio para não correr o risco de poluí-lo ou de embaçar nossas lentes ainda mais:
Não me obrigues, porém, a falar mais. As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se, logo que lhes pronunciamos o nome. … Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras“. (Siddartha, Hermann Hesse)