Ensaios sobre estar viva
Engraçado que, por mais que saibamos dos riscos das armadilhas dos rótulos, parece que gostamos de nos enredar nestas tramas. Posso olhar para trás na minha vida e traçar uma linha do tempo cujos marcadores seriam, justamente, rótulos de mim mesma: a que adoecia, a que chorava, a exibida, a gordinha, a bondosa, a esforçada, depois a muito magra, a saudável, a insegura, a corajosa, a comprometida. Engraçado, também, que olho para minha vida hoje e noto que minha mente ainda usa os mesmos marcadores e aprendeu outros ao longo das experiências até aqui. Hoje, enredo-me no marcador “psicóloga”. “Psicóloga” é um rótulo abrangente, o que é identificado pela minha mente; e o que ela faz automaticamente é segregá-lo cada vez mais, dando a mim mais e mais rótulos: a especialista em TCC, a especialista em Equilíbrio Alimentar, a especialista em ACT. Acreditei que eu era meus rótulos. Hoje, acredito com grande desconfiança!
A vida real, que é a vivida, a sentida, a respirada, não cabe em rótulos. Engraçado que, quando vivo os atendimentos, sinto o que é meu e o que é nosso; quando respiro com atenção, ali me sinto eu, ali sou eu. Ali não está a citação do autor ou os resultados apresentados dos últimos artigos. As referências que acesso são da minha experiência do momento presente; sem perder contato com ele, acesso outras referências da minha humanidade: os livros que li, os personagens que conheci, as músicas que escutei, as pessoas com quem me encontrei, as curiosidades culturais de um outro país, o cotidiano transformado em metáforas…
O ser humano integral não está nas escrituras sagradas, muito menos nas produções científicas. Já estava muito antes da escrita. E é “lá” (ou “aqui”) que permanece e “onde” pode se desenvolver. Está na natureza, também nas artes. Está em tudo o que é real, e o que é real é vivo.
Não estou abandonando os estudos e as abordagens. Pelo contrário: estudo ainda mais com vontade, com entusiasmo, com curiosidade, e integro o conhecimento específico das psicologias às minhas fontes de interesse e vitalidade. Atenção! Precisamos dos rótulos; eles são nossa forma de nos identificarmos, nos localizarmos, pertencermos e sentirmo-nos numa base segura. É SÓ ISSO. Nada mais.
Vi-me, como vejo muitas pessoas — não só profissionais da saúde —, rotulando-me, apegando-me aos rótulos, criando cisões, compartimentando a mim e ao ser humano. Compartimentar é o oposto da saúde. Saúde é integração.
Quando participamos da vida ativamente, a vida participa em nós. Esse é o meu verdadeiro trabalho. Comigo e com quem está comigo.
A partir de agora, o que, antes, eu dera o título “ACT na Vida Real” passa a ser ENSAIOS SOBRE ESTAR VIVA. Nada muda. Pois, na apresentação do título anterior, eu já havia exposto: “não sou uma terapeuta ACT, vivo a ACT”. É que, desde a criação do blog cujos textos estão a serviço do autoconhecimento, conheci-me muito mais a partir da leitura dos clássicos, da proximidade à filosofia (sobretudo a oriental), da imersão no yoga, da escuta de boas músicas, das caminhadas sem objetivos de desempenho e performance e do respirar o ar fresco das manhãs… da atenção ao canto dos pássaros, ao olhar para o céu, ao observar pessoas, ao saborear boas comidas e bons vinhos, ao conversar sem saber o que dizer a seguir e sem ter as respostas, escutando a vida de corpo inteiro.